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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O PREÇO DO AMOR

Segundo romance escrito por Wind Rose. Postado pela primeira vez em 2006.





PLÁGIO É CRIME! NÃO COPIE, CRIE! 
Este texto não caiu do céu, é resultado de MUITO trabalho.
Todos os direitos reservados. 

Proibida a reprodução, adaptação ou disponibilização para download,  no todo ou em parte, através de quaisquer meios, sem a autorização da autora. 
Lei de Direitos Autorais nº. 9.610/98





Lembrando que... Copiar a história apenas trocando o nome das personagens não é fanfiction nem adaptação, é plágio. Por favor, não façam isso, ok?




CAPÍTULO 01


- Onde está? Calma! Calma! Droga! Onde...? - Saí levantando almofadas e roupas...  Encontrei... Atendi...
- Alô?
- O... O... Oi!... Q... Quem fala?
- Michelli.
- Você é... Desculpa... Você é...
- Sou sim.
Já estava puta da vida... No mínimo alguma esposa achou o meu número no celular do marido.
- Você faz streep? - Perguntou rapidamente.
Percebi que podia ser cliente... Mudei o tom.
- Faço.
- É que vamos fazer uma despedida de... De solteira e queríamos um showzinho... Sabe?
- Tudo bem já fiz várias despedidas de solteiro. Sem problema. - Falei calmamente.
- Não! Acho que não entendeu... É... É de solteira... Temos duas amigas que vão se casar... Ah... Uma com a outra e... Queríamos fazer uma surpresa a elas...
- Tudo bem moça. Pra mim não tem problema. - Respondi achando engraçado o desconcerto dela.
- Certo e... E quanto você cobra?
- Depende. É só o show?
- Sim... Só... Se por acaso... Alguém... Quiser... Sei lá... Alguém quiser algo mais... Daí é outra história...
- Tudo bem. O show é quinhentos reais. - Falei sem constrangimento.
- Tudo bem... Vou falar com o pessoal e volto a te ligar... Daí combinamos... Obrigada.
- Ok. Tchau.
Voltei a dormir... Acordei quatro horas depois, olhei o relógio e vi que tinha perdido a primeira aula da tarde... Levantei, tomei um banho, almocei e fui para a universidade. No caminho encontrei Suzana, colega de aula e dei carona a ela...
- Oi Melissa, que bom que parou, estava atrasada. - Ela disse entrando no carro.
- Eu também... – Respondi.
- Você saiu cedo da festa ontem.
- É tinha outra festa pra ir e... Sabe como é... Aniversário de um amigo... Não podia faltar. - Menti. Suzana não sabia das minhas atividades profissionais.


Na quinta feira... Mesmo horário... Nove horas... O celular tocou e, de novo, não achei. Procurei, derrubando algumas coisas até encontrar.
- Alô?
- É... É Michelli...?
- Sim. - Já sabia quem era.
- Olha... A festa... Aquela despedida de solteira... Lembra? É amanhã à noite... Você pode?
- Posso. Que horas e qual é o endereço? - Fui bem objetiva.
- Pensamos em você chegar próximo às dez... Anota o endereço.
- Certo. - Abri o bloco, peguei a caneta e anotei o endereço que ela me passou.
- Meu nome é Bianca... Você chega e procura por mim... Certo?
- Ok. Vocês estão com algo em mente... Alguma roupa especial...? - Perguntei. Ela riu.
- Seja criativa... Tchau. - Desligou.


Cheguei próximo às dez... Uma casa enorme e muito bonita... Percorri uma estrada que era circundada por jardins e árvores esplendorosas que escondiam a fachada da mansão... Estacionei e subi as escadas que dava acesso à entrada principal... A porta estava aberta e muitas pessoas circulavam por uma enorme sala... Fui recebida por um jovem de terno e gravata... Quando me viu sorriu...
- Boa noite... Sou Michelli... A Bianca está? - Perguntei.
- Claro... Me acompanhe...
Fui atrás dele. Passamos por diversas pessoas. Casais, homens, mulheres, todos muito bem vestidos. Percebi os olhares em minha direção.
Entramos em outra sala onde estavam poucas pessoas. Quatro mulheres conversando próximo a uma janela e outras duas sentadas em um sofá. Muito próximas uma da outra.
- Dona Bianca, por favor... - Ele chamou uma das quatro mulheres que se virou em nossa direção.
- Chegou... - Ela disse para as outras.
- Olá Michelli... Estou curiosa para saber o que tem embaixo deste casaco... - Falou e riu.
- Surpresa... - Respondi sorrindo.
Ela chamou as outras, que vieram em nossa direção com empolgação.
- Vamos subir juntas, elas estão lá em cima.
Saímos da sala, passamos pelas pessoas novamente e subimos uma grande escadaria que circulava todo o salão. Entramos em um grande corredor. Passamos por diversas portas e paramos em frente a uma no final deste corredor. Bianca me olhou e disse:
- As duas estão aí dentro... É o quarto de Renata, dona desta casa, estão se arrumando para descer. Hoje elas estão oficializando a união para todos. Só que antes queríamos fazer essa surpresa para elas. Você espera aqui, eu te chamo.
- Tudo bem. Mas quando me chamar, por favor coloque este cd. - Tirei do bolso do casaco um cd e entreguei a ela e entraram todas juntas. Fiquei esperando.
Aproveitei para tirar o casaco e arrumar a roupa. Estava com uma roupa de odalisca, com muitos véus escondendo meu corpo. Tirei a sandália, fiquei descalça e coloquei um véu cobrindo o rosto, deixando apenas os olhos aparecendo.
A porta se abriu... E percebi o olhar de Bianca, que me olhou dos pés a cabeça... “Pode fechar a boca” - pensei. Me deu passagem... E ouvi a música... A primeira pessoa que enxerguei me fez perder a concentração naquilo que iria fazer... Olhos azuis profundos me analisaram inteira... Ela estava próximo a janela com um copo na mão... Não se moveu... Apenas me olhava... Séria. “O que ela está fazendo? Que mulher é essa?” Tentei prestar atenção na música e comecei a me mover... O ritmo da música árabe invadiu o ambiente e aos poucos me aproximei das duas que estavam sentadas na cama... Uma no colo da outra... Riam e se olhavam... Enquanto as outras falavam palavras de incentivo e batiam palmas acompanhando a música... Lentamente fui me livrando dos véus que cobriam meu corpo... Procurava não olhar para aquela mulher... Mas seus olhos me puxavam... Alta... Cabelos negros lisos contrastando com os olhos de um azul maravilhoso... Rosto bem desenhado... De repente me vi dançando pra ela... Que não tirava os olhos de meu corpo... Fui  me desfazendo dos véus no ritmo da música... Ouvias as risadas e a empolgação de todas menos dela... Duas  se aproximaram... Começaram a dançar comigo... Sem me tocar... Apenas acompanhavam os movimentos do meu corpo... Deixei que elas puxassem os últimos véus deixando apenas um que cobria meu sexo... Estavam se divertindo... As duas continuavam sentadas uma no colo da outra... Me aproximei e deixei que uma delas puxasse o último véu... Puxou de forma sedutora... Riam das amigas... E se olhavam de forma apaixonada... A que estava no colo falou:
- Acho que o presente era pra vocês mesmas...
E todas riram... Menos aquela mulher... Que me olhava me deixando perturbada... Constrangida... Mais exposta do que já estava...
Fiquei sem nenhum véu... Apenas com o do rosto... Quando a música acabou... Elas aplaudiram... Riram, fizeram piadinhas... E saíram do quarto... Fiquei juntando os véus, ainda nua e percebi que nem todas tinham saído... Me virei e fiquei de frente pra ela... Me olhou nos olhos... Seu olhar era intenso... Profundo... Azul... “Lindo!”... Se aproximou um pouco mais... Senti meu corpo recuar... “O que está havendo comigo?”... Puxou o véu do meu rosto... Bem devagar... Me olhou... E perguntou com voz firme:
- Por que você faz isso?
Entendi por que ela me olhava daquele jeito... Seu olhar era de reprovação... De repulsa... Senti raiva.
- Por que preciso!
Respondi no mesmo tom, me virei e continuei juntando os véus... Ela não se moveu... Percebi que olhava meu corpo... Queria sumir dali... Aquele olhar me queimava... Lembrei que deixei o casaco no corredor... E fui rápido em direção a porta... Ela continuava me olhando... Abri e sem sair, pois estava nua, tentei alcançar... Mas não consegui... Ela veio em minha direção... Passou por mim... Pegou o casaco e colocou em meus ombros... Fechou-o... E falou:
- Não concordei com este... Este presente... Mas as meninas queriam se divertir, não concordo em alimentar esse fetiche machista e... Além do mais... Acho que existem outras formas de se ganhar a vida... Sem precisar se vender. - Falou e virou de costas.
Não consegui me controlar:
- Quem você pensa que é? Você não me conhece! Não pode julgar as atitudes dos outros baseadas nessa... Nessa sua... Sua vidinha de mulher rica!
Falei e saí em direção ao corredor... Peguei minha sandália... Passei rápido pelo imenso espaço até as escadas... Desci sentindo meus olhos queimarem... Queria chorar, mas não faria isso ali... Atravessei o salão sem olhar para os lados... Na porta ouvi alguém me chamar, mas não parei. Entrei no meu carro e saí. Chorei... Chorei como a muito tempo não chorava... Nunca me senti tão humilhada... Aquele olhar... “Por que fiquei assim?”... O tempo todo... Me julgando... Condenando... Só faltou dar a sentença... “Quem ela pensa que é?”
Quando cheguei em casa lembrei que não havia recebido, mas não voltaria lá. Nunca mais ! Tinha gravado no meu celular o número de Bianca. Amanhã ligaria e cobraria.
Me joguei na cama e chorei... Ela me fez lembrar de tudo que havia passado até ali... Da morte de meu pai... Do desespero de minha mãe ao me dizer que teria que voltar pra casa, pois não tinha mais condições de me manter fora... Meu pai havia deixado muitas dívidas, mais o meu aluguel, universidade... Não havia mais dinheiro para pagar isso. Eu teria que desistir de um sonho. Os estágios e os empregos de meio período  não pagavam nem um terço do que precisava para me manter ali. Depois de cursar 2 semestres teria que voltar. Mas daí surgiu Marta, uma colega da universidade, com uma proposta que a principio pensei em recusar. Acompanhar executivos em uma visita a cidade. Algumas festas... Talvez alguma coisa a mais...
- Melissa você é uma loira linda... Olhos verdes... Tudo em cima... Corpinho saradérrimo... Vai fazer o maior sucesso...
Fiquei em dúvida, mas quando ela me falou de quanto pagariam... Aceitei. E, então, comecei... Cadastrei meu celular em uma agência que selecionava os clientes e me passava. Eu decidia se queria ou não... E assim... De vez em quando me transformava em Michelli... Comecei a fazer anúncios particulares no jornal e começou a surgir outros tipos de programas... Casais... Festas... E comecei a ganhar o suficiente para mim. Comprei um carro e ainda mandava dinheiro para minha mãe e tinha em mente que pararia assim que me formasse. Estava no último semestre. Nunca havia me sentido culpada por isso... Até hoje... Até aquela mulher me olhar daquela forma como se eu fosse o pior dos seres...


No outro dia... Meu celular tocou mais cedo ainda, mas já estava acordada. Dificilmente me preocupava em olhar o número, pois aquele celular era o de “Michelli”, portanto não interessava quem ligava. Atendi...
-Alô?
- Oi... É Bianca... Estou te ligando por que não consegui pagar você ontem... Saiu correndo... O que houve?
- Tinha outro compromisso e já estava atrasada. - Falei rapidamente.
- Entendo... Me passa o número de sua conta que vamos depositar...
Passei a ela o número da conta ela anotou.
- Certo... Hoje à tarde Renata fará isso... Muito obrigada... Foi muito legal... Tchau.
“Renata”... Ouvi esse nome e já sabia de quem se tratava... A raiva voltou, mas tentei esquecer. Fui pro banho.


Dois dias depois fui ao banco. Precisava mandar dinheiro para minha mãe. Tirei um extrato e não localizei o depósito que Bianca havia se referido, mas outro, do dobro do valor. Isso acontecia de vez em quando. Alguns clientes pagavam a mais do que havia combinado, sempre aceitava. Mas esse me incomodou. “Aquela riquinha idiota... Pensa que preciso de esmola dela... Pois vai ver”... Estava furiosa, magoada, me sentia humilhada e não entendia por que. Afinal podia aceitar o dinheiro a mais, como sempre... Mas desta vez não! Algo em mim queria mostrar a ela que não precisava do dinheiro dela, nada dela. “Vou devolver a diferença”.


Parei o carro na frente do portão. Desta vez estava fechado. Apertei o interfone e ouvi a voz de um homem.
- Quem? Michelli?
- Estive aqui há tres dias atrás e... E recebi por um trabalho e acho que houve um engano...
Silêncio... Mais alguns minutos e o portão se abre...
- Pode entrar Srta. Michelli.
- Olha... Não preciso entrar... Você pode vir até aqui. - Falei para ele.
- Por favor entre” - Ele disse calmamente.
Suspirei... Entrei no carro e entrei novamente naquela casa. Sentia minhas mãos molhadas... “Vou tirar de letra... Já passei por situações piores”.


Entrei na casa e fui recebida pelo mesmo homem que me recebeu no dia da festa, mas agora estava vestido de forma informal.
- Entre. Me acompanhe. - Disse e virou-me as costas.
- Não preciso falar com ninguém... Você pode... Só quero devolver a diferença, acho que houve um engano...
Falava mas ele não me olhava, continuava caminhando. Parou na frente de uma grande porta, me olhou e abriu. Fez sinal para que entrasse.
E, novamente, lá estava ela de pé... Próximo à janela... Olhando para o jardim... Senti um frio percorrer minha costas... Ela se virou e caminhou em minha direção...
- Que houve? Achou pouco? - Perguntou sarcástica.
Não respondi, abri minha bolsa, retirei um cheque já preenchido e o coloquei em cima da mesa...
- Acho que houve um engano. - Respondi e já estava me dirigindo a porta quando ela falou:
- Não aceita gorjetas, moça?
Mordi o lábio para controlar a raiva... Me virei... Ela estava bem próxima...
- Não preciso de esmolas... Muito menos sua... - Não desviei os olhos daquele olhar.
- Achei que vivia disso... Então é por diversão? - e riu.
Senti meu rosto pegar fogo... Precisava arrancar aquele sorriso dela... E decidi fazer o que melhor faço... Representei. Mudei a expressão... Sorri de forma sensual...
- Às vezes é... Quer se divertir? - E me aproximei... Percebi que ela corou..
- Não pago por sexo. - Falou de forma ríspida.
- E de graça... Quer?
Continuei da mesma forma. Queria tirar a ação dela, mas não consegui. Ela se aproximou, ficou a centímetros de meu rosto... Senti seu olhar me queimar...
- Esse cheiro é seu? Ou de alguém com quem foi pra cama? - Falou baixinho aspirando o ar próximo a mim.
Empurrei-a e tentei me virar para ir embora. Ela me segurou pela cintura e me fez virar para ela. Segurou meu corpo junto ao seu... Se aproximou... Pensei que ia me beijar... Mas passou a centímetros de minha boca e foi em direção ao meu pescoço... Senti sua respiração me percorrer da orelha ao ombro... Como se me cheirasse... Não consegui me mover... Estava entregue a ela...
- Não... Hmm...! Esse cheiro é seu... - Falou baixinho em meu ouvido.
Fazia muito tempo que eu não sentia o desejo tomar conta de meu corpo... Ela voltou em direção ao meu rosto, seu olhar ficou gelado... E me soltou... Se virou e caminhou em direção a janela. Falou friamente:
- Você deveria aceitar. As meninas adoraram o show e acharam que merecia mais. Não é esmola.
Quando terminou de falar, já estava novamente olhando pela janela, de costas para mim. Peguei minha bolsa e sai. Deixei o cheque no mesmo lugar.


“Meu Deus... O que foi isso?... Quem é essa mulher?” Dirigia, mas não conseguia me concentrar no trânsito... Saí do transe quando o celular tocou. Encostei e atendi, era da agência. Queriam acompanhantes para um congresso que estava acontecendo na cidade. Dei uma desculpa, agradeci e disse que não poderia. Fui direto pra universidade, pois tinha aula a tarde toda.
Aquela mulher havia mudado algo em mim... Mas eu ainda não sabia.

CAPÍTULO 02



No decorrer dos dias não atendi nenhum cliente. Estava sem disposição e a carga de trabalhos, provas e a monografia estavam me deixando exausta. Todos os dias passava pelos murais na universidade procurando algum anúncio para contratação de recém formados. Estava terminando o curso de administração e pretendia mais tarde fazer mestrado.

O dinheiro que havia guardado daria para segurar alguns meses e caso precisasse sempre haveria alguma possibilidade de conseguir algum. Mas comecei a querer evitar. Não havia mais feito anúncios pessoais. Somente a agência me ligava de vez em quando.

A situação financeira de minha mãe estava mais tranquila, disse que poderia começar a guardar para mim o dinheiro que mandava para ela. Na verdade ela não sabia qual era a fonte. Disse-lhe que fazia trabalhos free em algumas empresas... Acreditava.

Marta não entendia como podia recusar tantas ligações da agência.

- Melissa vc tem que se decidir... Daqui a pouco eles não te chamam mais...

- Acho que estou parando Marta... Cansei. - falei a ela.

Ficou surpresa...mas entendeu.

- Um dia todas paramos. - Completou.





Numa sexta feira o celular tocou. Fazia algum tempo que o celular de “Michelli” não chamava. Atendi já pensando na desculpa que daria a agência.

- Alô? É... Quem fala...? - Reconheci a voz. Era Bianca.

- Michelli. - Respondi com pouco entusiasmo.

- Não sei se lembra, mas há algum tempo atrás você fez um showzinho pra gente... - Não a deixei terminar:

- Lembro... A festa das meninas que casaram.

- Isso!... É o seguinte: amanhã é aniversário de uma amiga e ela pediu que a contratasse para repetir... Você pode?

- Bianca... Agradeço vocês terem lembrado, mas não faço mais isso. Estou me formando final do ano e não tenho tempo pra mais nada. Ok?                                        - Que pena... Digo... Que bom... Pena pra nós... Porque foi muito bom... Mas tudo bem... Vou avisar Renata... Vai entender.

Ouvi aquele nome e uma corrente quente percorreu meu corpo.

- Vai avisar quem?... Por quê?

“Não devia ter perguntado” - pensei.

- O aniversário é dela... Ela pediu que te ligasse... Até estranhei por que naquele dia ela ficou contrariada com nossa ideia... Mas acho que acabou gostando... Escuta... Desculpa insistir... Mas ela paga o que você pedir...

Ela riu. Aquilo me enfureceu:

- Você dá um recado a ela, por favor? Diga que por dinheiro algum no mundo eu dançaria pra ela ou faria qualquer outra coisa pra ela... Ok?

- Nossa! Calma... Desculpa... Vou dizer que você não aceitou... Tá bom?

- Tá... Tudo bem... Não tem nada a ver com você isso... Posso indicar uma amiga... Quer? - Falei e um sentimento estranho me assolou... Imaginei outra mulher dançando para ela...

- Acho que não... Mas vou ver... Qualquer coisa ligo de novo... Tchau. - Desligou.





Do outro lado da linha... Bianca desligou e foi até a sala onde Renata estava.

- Nossa ela tá brava com você... O que fez? - Bianca falou olhando para Renata.

- O que ela disse?

- Que dinheiro nenhum faria  dançar ou qualquer outra coisa pra você.. – Concluiu.

- Bianca consiga o endereço dela.

- Como... Como vou conseguir isso? - Perguntou assustada.

- Vire-se... Não sei como. - Falou e saiu.

Bianca ficou ali pensando no que tinha acontecido e se preocupou... Conhecia Renata há muitos anos e desde que Ângela  tinha morrido, há quatro anos, nunca mais teve ninguém em sua vida. Sabia de alguns casos passageiros, mas ninguém realmente sério. Tinha muitas mulheres a seus pés... E homens se quisesse... “O que ela queria com esta menina?... Tudo bem... Linda!... Mas daí a querer ir na casa dela?... Como vou conseguir?... Já sei no jornal! A primeira vez peguei o nome dela no jornal, alguns fazem cadastro de anunciantes... Vou usar a influência de Renata... Afinal sua empresa é uma das maiores anunciantes... Não vão negar um favor a Renata Costa Mendes da Fonseca.”





No decorrer da semana fui a algumas empresas que haviam anunciado vagas para recém formados nos murais da universidade. Preenchi fichas, fiz entrevistas, currículos... E estava aguardando algumas  respostas...





Uma semana depois da ligação de Bianca... Na sexta- feira a noite estava em casa, na frente do PC, trabalhando em minha monografia. Já passava das dez da noite. Ouvi a campainha...

“Como?... Ninguém chamou no interfone... Deve ser algum vizinho” – Pensei.

Fui até a porta... Nem olhei antes... Abri. Quando vi Renata na porta... Fiquei paralisada... “C..Como?” Não conseguia raciocinar...

- Não me convida para entrar?” - Ela perguntou, me olhando dos pés a cabeça. Estava de regata justa e uma calça branca de algodão leve.

- O que quer aqui?... Como descobriu meu... Meu endereço? - Falei sem me mover.

Renata deu um passo a frente e eu dei um passo para o lado, dando-lhe passagem. Fechei a porta... Renata ficou próxima a mim... Junto a porta.

- Não foi difícil... Basta conhecer as pessoas certas... - Respondeu.

- E você deve conhecer todas, não é? - Perguntei irônica.

- Não! Somente algumas. - Respondeu sem tirar os olhos dos meus.

Tentei me mover, sair daquele contato... Ela bloqueou minha passagem... E me pegou pela cintura... Como da outra vez...

- Por que não quis dançar pra mim? Não gosta do meu dinheiro... Moça?

- Não gosto de você! - Respondi de forma ameaçadora.

Ela me apertou mais...

- Não é o que sinto... - Falou já repetindo o gesto que havia feito em meu pescoço... Me cheirava...- Me solta... -  Sem muita convicção... Não conseguia me mexer.

- Por que não quis? - Repetiu novamente a pergunta sem tirar o rosto de meu pescoço.
- Sua amiga deve ter dado o recado... O que você quer de mim? Não quero fazer nada pra você e, também não quero seu dinheiro.

Tentei sair daquele abraço... Mas ela me apertava contra seu corpo...

- Quem disse que vou pagar? Já disse pra você que não pago por sexo.

Nesse momento me empurrou contra a parede e me olhou... Achei que ia me beijar, mas novamente passou seus lábios próximo aos meus e começou a se esfregar em meu pescoço... Senti sua perna abrir as minhas e senti sua coxa pressionando... Esfregando... Sua língua no meu pescoço... Não conseguia mais resistir... E não queria... Continuava me mantendo contra a parede... Levantou minha blusa... Tirou... Senti sua boca em meus seios sugando... Lambendo... Sem rodeios... Ela estava fazendo o que queria comigo... Comecei a não controlar meus gemidos... Estava cheia de desejo, de vontade dela... Desceu as duas mãos pela lateral de meu corpo e baixou rapidamente minhas calças... Levantou minha perna e a prendeu em seu corpo... Com a outra mão me invadiu fazendo movimentos que me deixaram alucinada... A segurei e acompanhei o ritmo de sua mão... Procurei sua boca... Mas ela evitava... Mantinha em meu pescoço... Mordia minha orelha... Começou a falar no meu ouvido... Entendi algumas coisas outras não...

- Já sentiu assim?... Enh?... Responde... Diz pra mim...

Não conseguia falar, mas respondi num gozo alucinante... Desfaleci em seus braços... Me segurou e descemos devagar até o chão... Ela deitou em cima de mim... Tirou meu cabelo do rosto e me olhou... Lindamente!... Aquele olhar me levava os pensamentos... Sentia minha mente vazia... Achei que ia me beijar... Chegava perto... Aspirava o ar... E se afastava... Sentia o seu nariz próximo a minha pele... E senti uma vontade irresistível dela... Me movi e a coloquei em baixo de meu corpo... Ela estava totalmente vestida... E eu nua em cima dela... A olhei enquanto abria sua blusa percebi que queria... Tanto quanto eu.... Sua respiração acelerada... Seu olhar me olhando com desejo... Queria beijá-la, mas não fiz... E fui abrindo todos os obstáculos que me separavam daquele corpo que desejava desde o primeiro dia que tinha visto... A deixei nua e da mesma forma que ela... Sem rodeios... Tomei seus seios... Fiz o que queria... Desci até o meio de suas pernas e senti vontade de engoli-la... Tomá-la... Minha língua a explorou de todas as formas... Pela primeira vez em muito tempo... Não estava preocupada em dar prazer... Mas saciar a minha vontade... Minha vontade dela... Percebi que estava chegando seu momento... Me segurou com força contra ela... Desta vez fui eu que falei:

- Ainda não... Espera... Quero mais...

Queria mais, queria prolongar aquela sensação maravilhosa de tê-la, mas não esperou por muito tempo... Tive a sensação maravilhosa de receber todo seu prazer na minha boca...

Ficamos no chão por mais algum tempo. Fiquei ao seu lado, apoiando a cabeça com uma mão e a outra passeava no corpo dela. Com as pontas dos dedos fiz o contorno dos seios, fui descendo até a barriga...

“Como é linda... Macia... Cheirosa!”

Estava encantada com seu corpo... Ela me olhava em silêncio e eu também. De repente ela levantou:

- Preciso ir embora. - Falou e começou a pegar as roupas.

Levantei com ela e calmamente comecei a me vestir. Ela também. Em silêncio. Antes de se dirigir a porta... Me olhou. Novamente achei que ia me beijar, mas desviou o olhar. Quebrei o silêncio:

- Fez o que queria? - Perguntei suavemente.

Ela não respondeu. Me olhou novamente. Não consegui decifrar aquele olhar. Abriu a porta e foi embora. Fiquei olhando para a porta por algum tempo.

“Por que não pedi que ficasse? Teria feito amor com ela a noite inteira...” – Suspirei.

Tomei um banho e voltei para minha monografia. Desisti.

“Renata... Renata... Renata... Sua pele... Seu cheiro... Seu corpo... Estou perdida!”

Tentei acionar todos os meus mecanismos de defesa.

CAPÍTULO 03

 
Naquele fim de semana fui para casa de minha mãe. Fazia algum tempo que não ia, pois meus finais de semana eram dedicados a diversos eventos... Que agora... Não queria mais. Voltei para casa no domingo a tarde. 


Tive mais uma semana de atividades intensas na universidade. Passei a semana envolvida com provas e com trabalhos. Procurei tirar Renata da minha mente... Mas de vez em quando meu pensamento a encontrava...
Mais uma semana passou e não havia recebido resposta de nenhuma empresa. Estava ansiosa. Até que na quarta-feira, ao chegar da universidade no final da tarde, vi um envelope na caixa de correspondências. O remetente era uma das empresas que eu havia feito entrevista. Peguei o envelope e não abri, subi correndo para meu apartamento. Sentei no sofá e calmamente li o nome da Construtora... Abri...

“Cara Srta. Melissa Andrade, informamos que seu currículo atende os critérios estabelecidos por nossa empresa, solicitamos que compareça nesta segunda feira no depto de RH da empresa para tratarmos de sua admissão. Grato...etc..etc...”

Terminei de ler e chorei. Beijei o envelope e o apertei contra o peito como se quisesse colocá-lo lá dentro. Queria dividir com alguém esta alegria que sentia, mas percebi que não havia pra quem ligar, pois durante muito tempo havia me afastado das pessoas. Foi a forma que encontrei de manter intacta minha privacidade e me proteger de julgamentos que certamente sofreria. Pensei em ligar para Marta, mas achei melhor não. Liguei para minha mãe. Ficou feliz... Embora não entendesse muito bem qual a diferença de antes... E agora.
Estava ansiosa, queria que segunda feira chegasse logo. Precisava providenciar algumas coisas, uma delas era comprar roupas novas. Apesar de meu guarda roupa estar abarrotado, sempre investi muito na aparência, pois até aquele momento vivia disso, sabia que precisava de roupas mais sóbrias. Resolvi que no outro dia faria isso.


Estava na cafeteria, sentada com várias sacolas na cadeira ao lado, com um livro de administração no colo, lendo-o, pois tinha a última prova na sexta a tarde... Estava concentrada na leitura e tomando um café... Quando ouvi alguém chamar minha atenção:
-  Olá moça...
Levantei os olhos e vi Bianca...
-  Oi. - Respondi me sentindo um pouco perturbada... Pois ela fazia parte do mundo de Renata.
Ela puxou a cadeira e sentou:
-  Posso? Atrapalho? Estou vendo que está concentrada... - Falou sorrindo.
- Não... Claro que não... Só estou revisando algumas coisas...
- É, final de curso é sempre assim... Passei por isso também. Está se formando em que?
- Administração. - Respondi levando a xícara aos lábios.
- Que ótimo! Eu também... Me formei há alguns anos. - respondeu empolgada.
Sorri pra ela.
- Não está sendo muito fácil. Provas, monografia... Acabei atrasando algumas disciplinas, daí acumulou...
- É sei como é. E depois que se formar... Vai fazer o que? 
- Na verdade ainda não sei... Fiz algumas entrevistas e recebi retorno de uma construtora... Me chamaram. - Falei demonstrando alegria.
-  Que ótimo! Então... Resolveu parar com...- silêncio -  Desculpa! Acho que não tenho nada que ver com isso...
Percebi que ficou constrangida com o que ia falar.
-  Tudo bem, não se preocupe. Mas já parei sim. Essa fase acabou.
Me senti a vontade para dizer isso a ela.
- E quando começa na empresa? – Perguntou.
- Não sei ainda. Tenho que comparecer na segunda feira. E você trabalha onde? - Perguntei.
- Bem... Não trabalho em uma empresa específica... Mas pra uma pessoa... Presto assessoria a ela. Possui várias empresas. Qual é a construtora que vc vai trabalhar?
Já sabia a que pessoa ela se referia. Disse a ela o nome da construtora e encerrei a conversa.
- Bem... Foi ótimo conversar com vc... Mas preciso ir... - Falei juntando minhas sacolas.
- Eu tamém. Mas diz uma coisa?... Seu nome? - Perguntou simpática.
- Melissa. - Respondi da mesma forma.
- Certo Melissa... Foi muito bom conversar com você. E boa sorte!
Me surpreendeu vindo em minha direção. Me deu um abraço e dois beijinhos no rosto... E me afastei em direção ao estacionamento. Todo o trabalho mental que havia feito nos últimos dias para não pensar em Renata... Acabava de cair por terra.


Domingo à noite, Marta me convidou para jantar, depois que contei a ela a novidade... Quis comemorar... E queria ir a um bom restaurante... Somente nós duas. Nunca havíamos feito isso. Sempre que saíamos juntas estávamos acompanhadas... De clientes.
Fomos a um dos melhores. Conhecíamos bem as melhores opções da cidade.
Escolhemos um local, sentamos e estávamos animadas com a conversa e com o vinho. Ela me contava algumas coisas engraçadas que tinha acontecido a ela durante a semana... E minha atenção se voltou para a entrada, por alguns instantes. Alguém me chamou atenção... Era ela... Linda! Estava com outra mulher... Muito bem vestida e bonita. Foram encaminhadas para uma mesa no fundo e acomodadas... Não consegui mais tirar os olhos dela... Marta falava... Falava... Eu não ouvia mais nada... Meu coração acelerou e acompanhei seus movimentos... As mãos segurando a carta de vinhos... Seus olhos que se concentravam na leitura e subiam em direção a mulher... Seus lábios movendo-se delicadamente... Percebi que repousou uma das mãos na mesa... E vi a outra colocar sua mão em cima... Se olhavam e ficaram assim por algum tempo...
- Melissa! – Ouvi.
- Ah! - Voltei... E vi Marta me olhando.
- Que coisa! Estou falando e você não me ouve... – Reclamou.
- Desculpa, Marta... É que... É que... Vi uma pessoa e... Deixa pra lá. - Falei sem articular as idéias.
- Quem? - Perguntou e se virou em direção a mesa de Renata.
- Ninguém. Alguém que achei que conhecia... Mas não era. - Tentei disfarçar.
- Hmm... Tá certo... Que coisa! 
Mais alguns momentos daquela tortura... Não conseguia me concentrar em Marta e meus olhos eram atraídos para aquele local... Até que nossos olhares se encontraram... Ela se moveu na cadeira... Vi que olhou para Marta... Para mim... E retornou a atenção para sua acompanhante...
- Vamos Marta? - Queria sair correndo dali.
- Vamos... Amanhã a senhorita tem que acordar cedo não é? - Falou e apertou minha mão... Entre as suas... Percebi o olhar de Renata.
Pedimos a conta. Marta insistiu que havia convidado. Pagou... E saímos... Caminhei em direção a porta... Mas não sentia minhas pernas... Percebi que seu olhar acompanhou todo deslocamento que fiz... Da mesa... Até a saída.

 
Na segunda-feira apresentei-me as oito na empresa. Fui conduzida a sala de um dos diretores da empresa, um senhor que deveria ter em torno de 50 anos. Sr. Antonio Cardoso - muito atencioso - que me recebeu muito bem. Apresentou-me a empresa, os outros diretores, disse que a construtora  possuía diversos acionistas e um majoritário, e falou das minhas funções, do salário que a princípio seria menor em função de não ter concluído o curso. Combinamos que até a formatura trabalharia por meio período. Conversamos por mais de uma hora e depois me encaminhou para outra pessoa. Maria Eduarda. Uma moça simpática que me levou em alguns departamentos e depois para a sala dela.
- Então Melissa, gostou? - perguntou sorrindo.
- Gostei muito... Espero corresponder... – Respondi.
- Tenho certeza que sim. Gosto muito de trabalhar aqui. Entrei como você. Estava terminando meu curso e tinha a mesma idade que você tem hoje, 24 anos. Estou aqui há cinco anos e pretendo ficar por muito tempo. A empresa é ótima, você vai ver. Vamos trabalhar juntas. - Sempre sorrindo.
Entregou-me a relação de documentos que deveria providenciar e me deu dois dias para retornar e começar no trabalho. Nos despedimos e saí... Muito feliz.
Naquele dia mesmo providenciei tudo. Fui na universidade somente no final da tarde para conversar com meu orientador e entregar a versão final de minha monografia.

 
Voltei pra casa, tomei um banho... Tinha algumas coisas para arrumar... Prendi meu cabelo, levantando-o atrás e o segurei com um lápis. Telefonei para minha mãe e estava organizando os documentos e as cópias que havia feito, estavam todos espalhados em cima da mesa na sala...  “Tenho que me organizar melhor...” Quando a campainha tocou. Senti uma sensação de déjà vu... Fui lentamente até a porta... E abri. Era ela... Estava de jeans e camiseta... Sempre a vi vestida de forma clássica, nunca imaginei que ela usasse algo assim... “Maravilhosa”... Ficamos por alguns instantes nos olhando... Diferente da outra vez... Sorri... Abri mais a porta e dei passagem a ela.
- Quer entrar?
Não respondeu. Entrou... Passou por mim... “Que perfume! Que delicia que você é!..” Percebi que olhou ao redor. Largou sua bolsa na cadeira e ficou de frente para mim.  Me aproximei... Queria beijá-la mas me controlei.
- Estou atrapalhando em algo? Percebo que está... Trabalhando?
A última palavra saiu de forma provocadora... Com ironia. Aceitei a provocação e rebati:
- Nunca trago... Trabalho... Pra casa...
Percebi que ela entendeu o que eu quis dizer com a palavra “trabalho”. Passei por ela e me dirigi ao sofá. Mas fiquei de pé.
- Quer sentar? - Perguntei...
Ela se aproximou lentamente... Meu corpo respondeu rápido a sua aproximação...
- Não... Não vim conversar... - Falou suavemente...
Me pegou pela cintura com uma das mãos e com a outra tirou o lápis que prendia meu cabelo... Senti sua respiração no meu pescoço... Seus lábios... Sua língua... Caímos juntas no sofá... Seu corpo em cima do meu... Suas mãos levantando minha camiseta... Procurando meus seios... Arranquei a dela... Senti sua boca explorando meu corpo... Me proporcionando sensações e emoções nunca antes reveladas... Me tomou de todas as formas... Senti sua língua invadir-me e fui dela. Fiz o mesmo... Mas desta vez quis dar a ela todas as sensações que sabia dar... O prazer que senti ao vê-la  tremer em minha boca... Em meus braços... Foi mais intenso que qualquer outra emoção que já senti na vida... Descobri que tê-la em meus braços era o maior prazer que eu já tinha experimentado... Me aproximei de sua boca... Encostei meus lábios... Deixei que ela viesse... Senti a maciez... Fechou os olhos... Por um momento tive a impressão de que me beijaria... Então virou o rosto e me afastou, sentou-se... Não acreditei.
- Por que...?... Por que não me beija? - A voz quase não saiu.
Ela me olhou.
- Por que a beijaria? -  Respondeu e levantou colocando suas roupas.
Ela não tinha culpa do que pensava a meu respeito. Fiquei arrasada. Levantei lentamente e comecei a me vestir... Sem olhar para ela... Por um momento tive a ilusão de que ela conseguia ver  Melissa e não a outra... Percebi que tinha sido ilusão... Pois nem meu nome ela sabia. Coloquei minha camiseta. Apertei meus braços contra o corpo e me senti completamente desprotegida naquele momento. Estava sendo tratada como sempre fui... Mas pela primeira vez estava doendo.
Ela terminou de se vestir... Virou pra mim... Disfarcei as emoções que sentia... Não queria que ela soubesse como estava me sentindo. Pegou sua bolsa abriu e senti que não aguentaria os próximos minutos... Ela pegou sua carteira... Tirou um cartão. Colocou em cima da mesa e falou:
- Se precisar de alguma coisa... Me ligue.
E caminhou em direção a porta. Saiu e fechou.
Deixei as lágrimas caírem... Num alívio por ela não ter feito o que pensei que faria... E mais ainda... Pela rejeição.

CAPÍTULO 04

O meu primeiro dia na empresa foi muito tranquilo. Maria Eduarda me apresentou as pessoas que trabalhavam no mesmo andar.
-  Com o tempo você vai conhecendo todos.
Falava e caminhava passando por setores e divisórias que separavam uma mesa de outra. Todos sorriam e alguns me lançavam olhares que me alertava um sentido bem aguçado.
“Mantenha-se longe”
Continuamos andando até que ela parou em uma mesa e falou:
- Esta é sua mesa. Poderá se organizar como achar melhor. Mais tarde vamos conversar por que quero passar a você alguns documentos que precisam ser providenciados e o nome de alguns clientes que merecem nossa atenção especial.
Terminou e foi em direção a sua sala. Sentei, liguei o computador e comecei a ler alguns memorandos que me dariam uma ideia do funcionamento interno da empresa e as últimas determinações da diretoria. Assim a manhã passou rápido. Saí e fui para a universidade. E o restante da semana foi igual. Conversava muito com Maria Eduarda que se mostrava extremamente atenciosa e sempre disposta a tirar minhas dúvidas.
Na sexta resolvi trabalhar também à tarde, pois não tinha aula e aproveitaria para adiantar alguns relatórios. No final da tarde vi Maria Eduarda se aproximar. Chegou bem perto e falou:
- Que acha de um cineminha? – Perguntou.
- Ótima idéia... Vamos sim.
Respondi sorrindo para ela. Precisava de companhia. Quem sabe esquecia Renata... Pelo menos por algumas horas.

 
Saímos da Empresa e marcamos de nos encontrar no shopping. Pegaríamos a sessão das oito. Cheguei em casa, tomei um banho, coloquei uma calça jeans, uma blusa azul, sandália baixa e saí. Encontrei Maria Eduarda me esperando no local combinado...
- Vamos? Acho que já tem fila.
Ela falou já caminhando em direção ao cinema. Paramos na frente das bilheterias e nos surpreendemos uma com a outra... Pois as duas não queriam admitir, a princípio... Mas queríamos ver o mesmo filme... Um  desenho. Rimos da situação... Entramos... Escolhemos um lugar e nos divertimos muito.

 
Saímos do filme ainda rindo. Principalmente por que ao olharmos para os lados percebemos que éramos as únicas adultas que não estavam acompanhando crianças. Afinal era um filme infantil. Decidimos jantar ali mesmo. Fomos para a praça de alimentação.
-  Que ótimo! Encontrei alguém como eu... - Ela falou sorrindo encantadoramente.
-  Adoro desenhos... Gosto de outros também, mas nunca perco os desenhos. – Falei.
- Nem eu! – silêncio - Melissa me responde uma coisa... É seu primeiro emprego? Quero dizer, formal sei que é, por que encaminhei seus documentos... Mas fazia algo antes?
Gelei com a pergunta. Não sabia o que responder. Não poderia dizer a ela o que fazia.
- Não... Na verdade sim... Ou melhor... Fazia alguns trabalhos sem vínculo... - Respondi completamente nervosa.
- Sei... A gente tem que se virar... Mas não é fácil... - Disse isso olhando intensamente em meus olhos, desviei o olhar.
Conversamos mais um pouco... Perguntou de minha família... Contei a ela um pouco de minha história omitindo o que devia... Não tirava os olhos dos meus... As vezes me sentia constrangida e sem jeito... Ela me contou um pouco da sua vida... Contou que também teve muitas dificuldades para chegar onde estava hoje... E assim... Ficamos por duas horas conversando... Não vimos o tempo passar.
- Você viu a hora? - perguntei.
- Vi... Mas estava tão agradável... Ficaria por muito mais tempo conversando com você... - Falou deixando claro com o tom da voz o que queria dizer.
Achei melhor disfarçar. Fazer de conta que não entendi. Seria melhor assim. Convidei-a para ir embora, nos despedimos e me deu um beijo no rosto... Demorando um pouquinho para afastar os lábios. Virei-me e fui embora.

 
No decorrer das duas semanas que seguiram recusei dois convites de Maria Eduarda e um de Felipe, colega que trabalha em um andar acima do meu. Estava me adaptando facilmente na rotina da empresa e estava gostando das atividades que me cabiam. Os dias passavam rapidamente, mas noite era longa. Pensava em Renata. Dormia lembrando de seu corpo... De sua pele... Sentia uma vontade incontrolável dela... Pegava o cartão que ela havia deixado... Tentava encontrar nele o cheiro dela... Lembrava de suas palavras:
 - Se precisar de alguma coisa me liga...
“Preciso... Preciso de você...”
Mas jamais a procuraria. Sabia o que ela pensava a meu respeito.

 
- Renata! Você não está me ouvindo? - Bianca bateu na mesa.
- Claro que estou... Continua. - Falou Renata olhando para os papéis em cima da mesa.
- Então me diz: que foi que eu disse na última meia hora? Fala! - Bianca esbravejou.
Renata levantou e foi até a janela... Olhou pra fora.
- Ela não sai da minha cabeça... Não sei mais o que fazer... - Disse num tom que deixou Bianca preocupada.
- De quem você está falando? Julia? - Perguntou cheia de dúvidas.
Renata virou para ela... Sorriu... Balançou a cabeça negativamente e sentou-se novamente onde estava.
- Esquece... Pensei alto. Onde paramos? - Falou pegando alguns papéis.
- Renata... Você não me engana. Aliás, nunca me enganou. Fique sabendo disso. E quando quiser conversar, sabe que pode contar comigo. - Falou e começou a separar os papéis que Renata havia misturado.


Estávamos no mês de dezembro. Minhas aulas haviam acabado, havia apresentado minha monografia. Decidi não participar da formatura apesar da insistências de minha mãe e de Maria Eduarda...
-  Acho que é um momento muito importante -  ela dizia. Mas não me convencia. Já havia decidido. - Mas vamos comemorar. Disso você não escapa. - Complementava.
Meu horário na empresa passou a ser integral e mesmo sem apresentar o diploma meu salário aumentou.
- O diploma é só um papel. O seu trabalho a qualifica. - Disse o Sr. Antonio em uma de nossas conversas.


Em uma tarde estava saindo da empresa... Havia deixado meu carro para fazer uma revisão e só o pegaria no outro dia. Caminhava em direção a portaria do prédio e Felipe me chamou:
- Não deixou seu carro no estacionamento? – Perguntou.
- Hoje estou a pé. Deixei na revisão. – Falei.
- Vem... Te deixo em casa.
Aceitei.
Ele estacionou em frente ao prédio. Agradeci e desci sem olhar para os lados. Estava cansada. Não vi um carro preto estacionado do outro lado da rua... Com Renata que observava...
Entrei em casa, atirei minha bolsa na mesa, tirei a roupa e entrei no banho. Fiquei alguns minutos embaixo do chuveiro sem me mexer, apenas sentindo a água cair...
Saí do banho, coloquei uma camisola, liguei a tv e... Ouvi o interfone. Atendi.
- Oi, Melissa. É Marta. Tô aqui em baixo um tempão...
- Estava no banho... Entra...
Abri. Ela subiu. Esperei com a porta aberta. Ela chegou me deu um abraço e entrou.
- Como está? Vim te convidar pra sair.
- Ah, Marta... Tô cansada... Vou ficar em casa... Não quer jantar comigo? Vou pedir uma pizza.
- Hoje não... Tenho uma formatura e queria que fosse junto... Faz um esforcinho, vai...
- Desculpa... Mas não dá. Outro dia a gente combina, tá?
Conversamos mais um pouco, nos despedimos e saiu...


Menos de 5 minutos depois... A campainha... Tinha certeza que era Marta novamente... Mas me enganei. Abri... “Renata!”
- Movimentado hoje... - Falou me olhando seriamente.
A surpresa me deixou sem ação... Havia esperado todos os dias por isso... E mesmo assim não estava preparada para vê-la novamente.
- Posso entrar? – Perguntou.
Percebi que estava na frente... E dei um passo para o lado.
- Claro... Entra.
Passou e... Novamente aquele perfume encheu o ambiente.
- Estava lá embaixo esperando... E vi você chegar com... Com um cliente? Talvez?... Depois sua amiga subiu... Ia embora mas...
Interrompi:
- Não é meu cliente... Ele é...
Ela interrompeu:
- Olha, você não precisa me dizer com quem sai... E muito menos...
Interrompi de novo:
- Quero dizer... Escuta... Por favor... Ele trabalha comigo na empresa  e... E me deu uma carona... Fiquei sem carro e... - silêncio - E não faço mais... Não faço mais programas... E... E... Queria que soubesse.
Ela se aproximou.
- Por que ? Por que queria que eu soubesse? Acha que isso muda o que?
- Desculpa... Não quero mudar nada... Só falei por que me conheceu... De outra forma e... Esquece... Não sei por que falei. - Seu olhar me deixava inquieta. Comecei a me irritar. Percebi que pra ela tanto fazia.  – O que veio fazer aqui? Transar? Pois eu não quero. Pode ir embora.
Enquanto eu falava ela caminhava em minha direção... Comecei a me mover pra trás... Aquela proximidade mexia com todos os meus sentidos..
- Sua namorada deu o que você queria hoje... Então? - Falou bem próximo ao meu rosto.
- Q... Quem? Não tenho namorada... Do que está falando?
Lembrei que ela viu Marta no restaurante comigo.
Já estava com o rosto em meu pescoço... Me segurando pela cintura... Sentia a parede em minhas costas...
- Tem certeza que não quer? - Falou no meu ouvido... Não me controlei e soltei um suspiro que saiu quase como um gemido... Não respondi e ela continuou: - Quero você... Mas quero só pra mim... Aceita? - Me olhou... Não estava entendendo o que ela dizia... Ela continuou: - Você não sai com mais ninguém... Pago o mesmo que você ganha... Posso pagar mais... Me diz... Quanto quer pra ser só minha? Chega de programas... Só comigo... Aceita?
Não acreditei no que ouvia. Empurrei-a. Meu rosto queimava...
- Não ouviu nada do que disse? – Gritei
Ela veio em minha direção novamente:
- Ouvi... Mas era para acreditar? - Falou rindo.
Olhei pra ela e disse de forma clara:
- Eu já disse que não faço mais programas!
Falei com toda raiva que sentia. Ela continuava com um sorriso irônico.
- Uma vez... Puta... Sempre...
Falou bem próximo ao meu rosto. Olhei pra ela segurando as lágrimas e respondi de forma ameaçadora e firme:
- Posso ser... Das mais vadias... Mas não sua!
Quando falei... Ela me empurrou novamente contra a parede e aproximou seus lábios... Pela primeira vez... Tentou me beijar... Virei o rosto e consegui pegá-la pelos braços e troquei de posição com ela... Empurrei-a contra parede... Segurei seus braços... Ela tentava alcançar minha boca... Não deixei... E extravasei minha raiva naquelas palavras:
- Agora quem não quer beijar você sou eu! Saia da minha casa!
Soltei-a e rapidamente me dirigi a porta. Abri... E completei:
- Se a única coisa que tem pra oferecer é o seu dinheiro... Não quero! Sai!
Quando ela passou pela porta bati com todas as minhas forças. Fui até meu quarto... Me joguei na cama e deixei o choro explodir. Não dormi... Vi o dia amanhecer... Mas não chorava mais... Não tinha mais lágrimas.

CAPÍTULO 05


No outro dia... Na casa de Renata...
- Bom dia Srta. Bianca...”
- César... Você é tão gentil! Onde está Renata?
- No escritório. Desculpa a invasão... Mas acho que ficou lá a noite toda.
Falou com ar preocupado. Bianca se dirigiu ao escritório rapidamente.
- Oi Renata... Que houve? Pela cara não dormiu...
- Não... Estou péssima, Bianca... Preciso contar... Senão vou explodir...
Começou a chorar...
- Nossa! Que houve Renata? Me fala... Calma...
Sentou-se ao lado dela no sofá. Renata contou a Bianca tudo aconteceu desde o dia que “Michelli” havia feito o show no casamento de Laura e Karina. Falou das vezes que esteve em seu apartamento, depois que ela havia conseguido o endereço... Falou que não conseguia pensar em outra coisa e que achava que estava enlouquecendo... Havia tentado esquecê-la com Júlia... Inclusive saíram  algumas vezes... E que em uma dessas vezes havia encontrado-a no restaurante... Falou do ciúme que sentiu... E finalmente falou do que tinha feito a noite anterior... Contou tudo, inclusive que ficou esperando na frente de seu apartamento... Falou da raiva que sentiu quando viu ela descer do carro de um homem... Depois quando chegou aquela mulher... Achou que era sua namorada... Todas essas dúvidas a fizeram agir de forma impulsiva... Estava se sentindo péssima... 
“Estava apaixonada pela pessoa errada”.
Quando terminou o relato chorava e Bianca a olhava incrédula.
- Renata... Eu... Eu não acredito que fez isso... A menina deve estar arrasada... – suspirou  e continuou: - Por que não acreditou nela Renata?
- Coloque-se no meu lugar... Bianca... Como eu posso... Ela... Ela é... - Tentou argumentar...
- Renata... A Melissa FOI garota de programa... Não é mais... Ela está tentando recomeçar! - Falou com censura.
- Melissa? É esse o nome dela? Como... Como sabe? - Não entendia...
- Você nunca perguntou o nome dela? Eu não acredito! Transou com ela... E... E nem perguntou o nome dela? Quer saber como sei? Por que tive menos de cinco minutos de conversa com ela no shopping e descobri tudo isso que você sequer pensou em saber... Ou se preocupou – Falou ríspida. E continuou: – E tem mais coisas que você não sabe. Ela não mentiu pra você, ela está trabalhando sim e sabe onde Dona Renata? Na Mendes da Fonseca. É... Na construtora que você é a maior acionista. Quer saber como sei? Nos cinco minutos de conversa que tive com ela!
Bianca falou alto. Renata olhou pra ela e as lágrimas caiam:
- Por que não me contou? - Falou com a voz embargada.
- Como eu ia saber que você estava transando com ela? - Bianca respondeu ainda de forma ríspida... E continuou: - No dia que ela me disse o nome da empresa fiquei contente por que vi que podia ajudá-la. Liguei pro Antonio e pedi que desse atenção a ela, e também liguei pra Maria Eduarda. Mas me arrependi.
- Por que? - Perguntou Renata.
- Por que a atenção de Maria Eduarda ultrapassou um pouquinho o limite. Ela ficou interessada em Melissa. - Falou prevendo o descontentamento de Renata.
- Espero que ela não tenha... Não tenha...
Bianca interrompeu:
- Não, Renata... Maria Eduarda respeita Melissa... O que você não fez. - Falou e se arrependeu.
 - Agora ela deve me odiar... – Renata disse num suspiro com as mãos escondendo o rosto.
 - Ela está começando, Renata... Uma nova vida. E você queria a empurrar de volta pra lama. Não sei se ela te odeia, mas acho que não deve querer ver você na frente dela. - Concluiu. Olhou para a amiga e a viu frágil. A poderosa Renata Costa Mendes da Fonseca estava irreconhecível... Se aproximou, ficou de joelhos em sua frente, afastou os cabelos de seu rosto e falou com carinho: - Renata... Desde que Ângela se foi você se fechou em uma redoma... Não deixou ninguém entrar... Ficou aqui como se vivesse em um mosteiro, olhando a vida pela janela... De repente você encontra alguém que te oferece a libertação e o que você faz?
Renata chorava...
- Por que ela, Bianca? Porque?
- Eu sei que não é fácil... Renata... Sei que aceitar a vida que Melissa teve até pouco tempo é difícil... É uma sombra que acompanhará ela sua vida inteira... Mas se você realmente a quer... Tem que lutar por ela. Ajudá-la. E não cobrar o que ela não pode consertar.
Abraçou Renata e esperou ela se acalmar.


Passei o fim de semana em casa. Não quis sair com Marta que ligou duas vezes. E no domingo Maria Eduarda ligou para convidar-me para almoçar. Também não quis... Queria ficar em casa.
As palavras de Renata não saiam de minha mente... Martelando... Por mais que eu quisesse esquecer nunca conseguiria... Me sentia marcada... Como se ostentasse um símbolo que me  identificasse. Renata definiu:
“Uma vez puta... Sempre...!”
Era esse o seu olhar para mim. E era isso que ela queria... Um programa. Estava disposta, ainda, a pagar para ter exclusividade. Me apaixonei pela única pessoa que me tratou como um objeto. Nunca, nenhuma das pessoas com as quais havia saído, tinha me humilhado tanto. Precisava esquecê-la e faria de tudo pra isso.


Na segunda-feira cheguei na empresa no horário de sempre e a primeira pessoa que veio ao meu encontro foi Maria Eduarda:
- Oi Melissa... Fiquei preocupada com você. Não viu minhas ligações no seu celular?
- Desculpa  Eduarda... É que... Esse fim de semana não estive muito bem. Precisei de um tempo. Só isso... - Falei triste.
- Cara! Você tá pra baixo. Se quiser conversar... - Disse bem próximo de mim.
- Obrigada. Mas agora esta tudo bem. - Menti.
- Almoçamos? Por favor... - Falou como quem implora e sorriu.
-  Sim. Almoçamos. - Retribui o sorriso...


Mergulhei no trabalho. Vi que estava na hora do almoço quando Maria Eduarda chegou próximo a minha mesa:
- Vamos?
E saímos.


A semana correu tranquila na empresa, e Maria Eduarda estava sempre por perto. Estava sempre perguntando se eu estava bem. Almoçávamos juntas todo dia, a proximidade de Eduarda me fazia muito bem.


Duas semanas depois... Na sexta-feira, ela  convidou-me para sair. Ir em algum bar ou boate. Aceitei.


Combinamos que ela passaria em minha casa às onze horas. Um pouco antes, ela já estava no interfone.
- Estou descendo. – Falei.
Chegamos... Procuramos uma mesa um pouco afastada do palco, onde uma banda tocava, para podermos conversar. Maria Eduarda sentou na cadeira ao meu lado, pedimos algo para beber e em pouco tempo me sentia mais leve. Conversamos sobre trabalho, família, colegas e depois de algumas risadas...
- Não sabia que você vinha aqui. - Falou Maria Eduarda.
- Por que? Qual o problema? - Perguntei.
Ela me olhou e riu.
- Sabe por que falei... - Continuou rindo.
- Por que é um bar GLS? O que tem isso? Muita gente que vem aqui não é gay - Falei.
- E você é? - Perguntou sem desviar os olhos. Devolvi a pergunta:
- E você? Também quis vir... Você é?
A bebida já havia feito seu efeito... Me sentia bem.
- Quer descobrir?
Se aproximou calmamente de meus lábios... Esperou a minha reação... Como não me afastei... Encostou... Gostei... Entreguei meus lábios a ela... E busquei os seus... Nos beijamos por alguns minutos... Um beijo quente... Molhado... Nos afastamos... Ela continuou olhando em meus olhos... E falou:
- Fazia algum tempo que queria fazer isso.
Não respondi. Ela puxou meu rosto e novamente me beijou.
Ficamos por mais alguns momentos, conversamos... Ela me olhava com carinho. Queria saber da minha vida. Pensei em contar a ela algumas coisas, mas desisti. Pedimos mais bebida... Até que sugeri que fossemos embora. Saímos e no carro nos beijamos mais algumas vezes. Ela parou na frente do meu prédio...
- Eu quero você Melissa... - Me puxando junto a seu corpo... Me afastei... Olhei para ela e falei com carinho:
- Eduarda... Ainda não... Queria que você entendesse...
Ela colocou os dedos em meus lábios interrompendo:
- Vou ter paciência. Espero pelo tempo que você quiser... Tá certo?
E me beijou... Desci do carro e entrei.


Maria Eduarda ficou ali esperando Melissa entrar. Lembrou de quando ela entrou na empresa, do telefonema de Bianca, contando quem era Melissa, como a conheceu, o que ela fazia para viver até aquele momento, e pedindo que a ajudasse em tudo que precisasse. Bianca queria ajudá-la. À princípio não havia entendido a preocupação de sua prima com aquela menina. E agora entendia. Melissa era especial...
“Estou apaixonada! Quero você Melissa!”
Ligou o carro e foi embora.


Estávamos nos aproximando do natal e a empresa faria um recesso de 15 dias. Voltaríamos  no inicio de janeiro. Então, a última semana antes do natal foi uma correria. Muitas providencias, telefonemas, documentos... Quase não conversei com Maria Eduarda. Ela passava pela minha mesa e sorria. Eu retribuía...
O natal seria no sábado. Trabalharíamos até sexta meio dia, pois a maioria viajaria. Eu estava indo para a casa de minha mãe, apesar das insistências de Maria Eduarda para que eu voltasse para passar o ano novo com ela em uma praia. Não aceitei. Voltaria somente em janeiro. Precisava desse tempo.
Fui até a sala dela na sexta feira para me despedir e desejar-lhe feliz natal e ano novo. Ela se aproximou e nos beijamos.
- Quando voltar estarei aqui... Esperando você... - Falou e me abraçou. Me senti segura naquele abraço... Nos afastamos quando o telefone de sua mesa chamou. Ela foi atender e eu saí de sua sala.


- Alô? Sim... Pode transferir.
- Duda?
- Oi Bianca... Tudo bem?
- Querida, estou ligando pra ver se quer ir conosco para a praia. Ficaremos lá até o ano novo, vamos? Ou já tem planos?
Bianca fez a última pergunta de forma maliciosa.
Maria Eduarda suspirou e respondeu:
- Não tenho planos. Meus planos acabaram de sair pela porta...
- De quem está falando? - Perguntou Bianca... Prevendo a resposta:
- De Melissa. Lembra? A menina que você pediu que olhasse... Pois é... Não canso de olhá-la! - riu.
Silêncio.
- Duda você está saindo com ela? Vocês estão... Estão...
- Não estamos nada... Ainda. - suspirou e continuou: - Vão todos pra casa de Renata? Ela tb? - Perguntou... Mudando o assunto.
- Sim. Leticia e Karina, a Claudia e o João e claro, as crianças. O Marcos, eu e a Sandra, Júlia que não desiste de Renata e você se quiser.
- Vou sim. O problema vai ser aguentar o Marcos. Mas tudo bem... Se eu conseguisse convencer Melissa... Hmm... Nem é bom pensar... Ok! Mas vou sim!
Despediram –se e desligaram.
Do outro lado da linha Bianca fechou o celular lentamente... Preocupada...
“Dez dias com essas duas juntas... Não vai ser fácil...”


O final do ano passou lento. Revi muitos parentes que não via há muito tempo. Reuniram-se no natal, depois novamente no ano novo... E no dia quatro de janeiro estava retornando para casa. Todo esforço que fizera para não pensar em Renata tinha sido em vão. Entrei no apartamento e a primeira coisa que pensei foi nela... Me tomando em seus braços... Seu corpo sobre o meu... Seu cheiro... O beijo que não aconteceu... Sonhava com sua boca na minha e logo me lembrei da tristeza que senti com suas palavras... Suspirei...
“Desse jeito nunca vou esquecê-la.”


Na casa de praia de Renata...
- Renata... Você tem certeza que vai ficar sozinha aqui? - Perguntou Bianca.
- Sim Bianca. Tenho. Esses dias foram demais pra mim, preciso ficar sozinha. Não estava preparada para Julia, não imaginei que seria tanta pressão, mas acho que agora ela entendeu...
- Se não entendeu é masoquista, por que só faltou você mandá-la embora. Ainda bem que ela foi logo depois do ano novo... Senão...
Terminou de falar e viu Maria Eduarda entrar no quarto.
- Vou embora hoje a tarde. Tive uma ótima noticia! Agora...
Entrou sorrindo  e falou para as duas. Bianca ficou preocupada, tinha conseguido evitar o assunto até aquele dia.
Renata olhou para ela e perguntou:
- Achei que ficaria até amanhã. O que fez você mudar de ideia?
- Saudades Renata... Saudades... - respondeu. Bianca ficou gelada.
- Pelo visto não é da empresa... – Renata falou sorrindo.
- Não... É de uma loirinha maravilhosa, de olhos verdes lindos e dona dos lábios mais macios que os meus já tocaram...
Seus olhos brilharam e os de Renata se apagaram. Baixou a cabeça e olhou para Bianca, que disfarçava, olhando e mexendo em alguns livros que estavam sobre a cama.
- Bem... Vim me despedir e agradecer. Tirando o pé no saco do irmão da Sandra, não sei como você aguenta um cunhado desses Bianca! Da gritaria das crianças,  do mau humor de Julia e a saudade da minha menina... Foi tudo ótimo! Conversamos outra hora... Ah! E a festa da construtora... Tudo certo! Já conversei com Antonio e ele confirmou o clube... Semana que vem...
Se aproximou de Bianca, deu um beijo e virou-se para Renata que estava imóvel. Deu-lhe também um beijo e saiu, deixando as duas em silêncio...
Quebrado por Bianca:
- Renata... Não sabia como te falar... - Disse num tom baixo.   
- Você sabia que elas estavam juntas e não me disse? - Demonstrando descontentamento.
- Elas não estão juntas, Renata... Saíram algumas vezes, mas sei que não estão juntas... Pelo menos até agora... - Falou tentando amenizar.
- Elas se beijaram Bianca... Ela beijou Melissa... - Falou para si mesma.
- Você está preparada para encontrá-las na festa... Se estiverem juntas?
- Não! - Respondeu seca.
Bianca suspirou fundo e previu os dias difíceis que teria pela frente.